
O You-Tube também destruiu a sua vida?
Eu vinha num processo legal, caminhando para uma relação saudável com a internet...até que a chance de rever clipes toscos e todos os pileques de Heleninha Roitman me congelou horas diante do micro sem a menor noção do tempo perdido nessa atividade nada produtiva.
O que eu mais gostei foi de poder ver quadros de
stand-up comedy que jamais seriam disponibilizados por essas bandas. Ah, foi mal aí pra quem não entende esse tipo de humor, mas trata-se certamente da forma de arte mais completa e formidável que existe. Segurar a atenção de uma platéia só com texto, microfone e atitude é o sonho de todo professor, né? Talvez por isso eu admire Jerry Seinfeld mais até do que Camões e Madonna. Eu adoro as narrativas torpes e as reflexões amorais sobre o cotidiano...para mim, quanto mais politicamente incorreto, melhor. Foi mal se você se vê retratado no patético da vida, mas eu quero é rir desse mundo estranho! O tom digressivo desse blog não é meio metidinho a engraçado? Confesso, sou uma comediante frustrada.
Graças aos conselhos de um amigo professor e também
comedian-wannabe, vi tudo o que pude do Chris Rock. Ao mesmo tempo em que me apaixonava perdidamente pela série que para mim foi a grande estréia da temporada 2005-2006:
Everybody Hates Chris, onde Rock passa a limpo sua adolescência de menino negro no Brooklyn desconstruindo e escrachando todos os mitos relativos à democracia racial que os EEUU ainda tentam ingenuamente vender ao mundo . Ele toca fundo na ferida e incomoda muita gente que já acusou o programa de ser panfletário e chulo.

Uma das incomodadas - por outros motivos - foi uma ex-professora de Chris Rock, mostrada na série como uma senhora doce e bem intencionada, mas que sempre que tentava ser inclusiva dizia ao garoto coisas como “Você e sua gente...” Causou furor na mídia o
mea culpa da velhinha, retratando-se por suas atitudes racistas e anti-pedagógicas numa carta ao comediante. O engraçado é que a ficha da coitada só caiu agora, mais vinte anos depois, quando ela assistiu a série e conheceu o ponto de vista do menino que ela imaginava ter tratado tão bem. Ou será que ela "se arrependeu" só porque
todo mundo viu? Não seria a primeira a oferecer ao mundo desculpas vazias, certamente.
Graças à minha catarse bloguística, tive meu dia de Chris Rock. Esbarrei certa noite com o vilão de uma das narrativas: “Legal seu blog, você escreve bem, não pensei que você fosse tão engraçada...blablabla”. Eu me achando a tal...
coitado, isso é apenas UMA das coisas maravilhosas sobre mim que você não quis descobrir...até que: “Aí...foi mal. Não sabia que você tinha ficado chateada. Tá muito gata, hein? Vai entrar?”
Bem, podia ser pior. O acaso me poupou de ler “foi mal” em comentário ao post em questão. A propósito, esse irritantíssimo “foi mal” devia servir de slogan para essas operações tapa-buraco emergenciais que os políticos em campanha promovem para maquiar a cidade por alguns dias. Até a próxima chuva. E a próxima enchente.
Aparentemente “foi mal” apaga qualquer incômodo do passado, recente ou jurássico. Quando foi mesmo que essa lamentável expressão se tornou tão poderosa, hein? Ouvi até dizer que estão revendo os livros infantis...onde lia-se ABRACADABRA agora se lê “foi mal”. Não importa o tamanho do milagre que se almeje !
Não pensem , no entanto, que se trata de um artifício recente. As origens da expressão remontam ao simbólico ano de 171 A.C., quando numa sauna romana um soldado alquebrado e constrangido disse pela primeira vez: "Foi mal, isso nunca me aconteceu antes!"
“Foi mal” serve tanto para “foi mal, não te liguei” quanto para“foi mal, te endividei”, “foi mal, queria poupar sua vida, mas tenho medo de ser reconhecido!” Será que funciona se eu olhar pro espelho de ressaca e disser: “Ah, bebi tanto...foi mal!”? Se eu fumar dizendo “foi mal” meu corpo me poupará das rugas? Ou a mágica só funciona mesmo pra homem?
Parece que sim e segundo uma amiga a responsabilidade é 100% nossa: mães, filhas, irmãs, amigas, esposas. A gente desculpa os caras de tanta coisa que eles acabam sempre achando que vão escapar de mais uma dizendo apenas “Ih! Foi mal...”
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Menos no Mundo Bizarro do Chris Rock. Me desculpem, meninas: